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quinta-feira, 29 de abril de 2010


Porque nem só de F.C.Porto, frente à equipa que nos visita no Domingo, vive o homem e porque nem quero falar de Olegário Benquerença, ou melhor, apenas formulo o desejo que a pouca vergonha que se passou no jogo entre o clube do regime e o Nacional não se repita e como também não quero falar do Zé Mário, que era malcriado, arrogante, presunçoso e agora, tudo lhe perdoam, até o anti-futebol, aproveito a boleia do Portucalense e publico uma excelente entrevista de André Villas Boas ao Diário de Coimbra...Este rapaz vai longe!

“Vir para a Académica podia ter sido um passo suicida”

Correu bem a André Villas-Boas a primeira aventura como treinador principal. Na primeira entrevista após garantida a permanênciada Académica, o jovem técnico falou de tudo. Coerente, rigoroso e até mesmo agressivo, nalguns casos, André fez questão de deixar a sua marca nesta conversa com o nosso Jornal. Feliz por estar na Académica, não esconde o risco que ele próprio e o clube correram quando em Outubro assinaramum contrato por dois anos. Satisfeito pela qualidade de jogo e muito elogioso para com os homens que orienta, o técnico de 32 anos foi ainda taxativo quanto a uma coisa: não gosta nada de ser comparado com José Mourinho.

Diário de Coimbra (DC) Não tinha qualquer experiência como técnico principal. Porquê a vinda para a Académica?
André Villas-Boas (AVB) Era um desafio que já procurava há algum tempo, pois sentia-me com competências para abraçá-lo. Sentia que, apesar de trabalhar com aquele que eu considero o melhor treinador do mundo, podia dar muito mais do que aquilo que fazia, mas também percebia que dentro daquela estrutura as minhas competências eram exactamente aquelas. Era ali que como membro da equipa técnica me viam forte. No entanto, sentia-me com capacidade para dar um passo maior. Era uma ambição que nunca escondi dele (José Mourinho). Era um passo que ele sabia que eu estava pronto para dar, que queria dar e que seria uma questão de “timing” até acontecer. Obviamente que ele sempre soube da situação e a verdade é que esperava que fosse no final da época 2008/2009, mas esse convite não apareceu por muito pouco. Iniciei a nova época dentro da estrutura do Inter até vir a proposta da Académica, que me agradou bastante. Sentia-me pronto para abraçar esse desafio. A confrontação com aquilo que era, na altura, a realidade da Académica podia parecer um passo suicida, tendo em conta o que é a equipa técnica Mourinho e o sucesso que a mesma tem obtido, mas sentia-me com capacidades para dar muito mais e acreditava que conseguia fazer vencer o projecto Académica. Por isso, decidi avançar.

DC - Não houve nenhum clube que lhe tenha manifestado interesse antes da Académica?
AVB Proposta concreta só houve a da Académica já depois da época 2009/2010 ter começado. Houve foi uma forte possibilidade de regressar a Portugal no final da época 2008/2009, mas que não se realizou por muito pouco.

DC - Está a falar do Sp. Braga?
AVB Não estou a falar de nenhum clube em especial. Logicamente que o mercado de treinadores é muito competitivo em que há mais oferta do que procura. Fala-se muito, especula-se muito. Houve contactos, mas acabou por não se realizar, o que é normal.

DC - Pode-se dizer que foi José Mourinho que lhe abriu as portas da Académica? O facto de trabalhar com ele terá sido decisivo?
AVB Está a colocar as coisas de uma forma que não me parece correcta. As competências são o que se analisam. Eu não tive acesso à Académica sem ter que mostrar um projecto que fosse capaz de resultar. Obviamente que o prestígio do José Mourinho é inigualável e não sei se foi isso que pesou numa decisão do presidente Simões. Isso teria de ser perguntado a ele. Qualquer membro de uma equipa técnica, que trabalha com o melhor treinador do mundo, se deseja um dia assumir uma carreira a solo terá de ter competências e terá sempre de apresentar um projecto viável e depois fazê-lo triunfar. Enquanto não for capaz de o fazer triunfar poderá dizer-se que só teve acesso a isso porque trabalhou com quem trabalhou. A partir do momento em que há competência e resultado, deixa de se pôr essa questão. Não sei se abre as portas ou não, nem estou minimamente interessado. Acima de tudo penso que tenho uma personalidade e carácter completamente diferente do José Mourinho. Agradeço a oportunidade que ele me deu na altura para trabalhar com ele, mas também fiz valer as competências na função. O sucesso dele também foi em parte o meu sucesso. A partir do momento da minha saída o sucesso que estou a construir será meu, da minha equipa técnica e dos meus jogadores.

DC - Também fez questão quando chegou a Coimbra de separar as coisas em relação a José Mourinho?
AVB Sim, porque como já tive oportunidade de dizer é uma comparação que me irá perseguir para o resto da vida. Compreendo que as pessoas andem à procura de em todos os meus gestos que vejam ou revejam o José Mourinho. Não percebo porquê, quer dizer… até percebo porquê. Agora só quem não me conhece é que vai querer fazer essas deduções que não têm cabimento. Neste período no comando da Académica tenho demonstrado o meu carácter e só uma pessoa sem carácter é que imita os outros. Nesse aspecto acho que não é justo, mas também é uma coisa que não me preocupa minimamente.

DC - Já lhe chamaram clone de José Mourinho, algo que já se percebeu que não lhe agrada, mas também mandar o casaco para a bancada como no jogo em Matosinhos acaba por dar azo a comparações.
AVB Está a ter exactamente o tipo de pensamento dos que andam à procura de gestos iguais. Não está a ver o espontâneo, nem o momento e a exaltação que se vive numa situação daquelas. Se calhar anda à procura do momento em que o José Mourinho atirou o casaco ou quando atirou a medalha ou então quando foi dar a volta ao campo com a Taça UEFA na mão. Espero ganhar um dia uma taça para poder dar a volta ao campo. Será a minha exaltação. Agora esse é o pensamento reducionista. Se continuam a ter esse tipo de associações não posso fazer mais nada. Apenas registar.

DC - Disse há pouco que a decisão de vir para a Académica foi também um pouco suicida. Será justo dizer que este é o grande desafio da sua carreira?
AVB Sim, acho que foi o grande desafio da minha carreira, porque para o ano, correndo tudo bem e mantendo-me na Académica, será um plantel escolhido por mim. Serão as minhas escolhas e competências que vão ditar quem entra e quem sai. A mim e ao director desportivo sempre dentro da realidade em que vivemos, que é um orçamento muito baixo e dos mais baixos da primeira liga. Estou convicto de que esta equipa podia terminar muito mais alto e ter feito uma ascensão mais do que notável. Mas o futebol é caos, não é causas e consequências. O caos aconteceu para nós com o síndroma dos pontos perdidos nos últimos minutos. Uns por incompetência e uns por outros factores, o que não nos permitiu ter uma posição mais sólida e que podia reflectir mais a qualidade dos jogadores que temos. A nossa qualidade de jogo é um dos nossos motivos de orgulho. Podíamos estar um pouco mais acima, mas acabamos desta forma. De qualquer modo, nestes dois jogos queremos solidificar a nossa posição.

DC - Como é que encontrou a equipa quando entrou?
AVB Uma equipa que andava à procura de se encontrar. Os jogadores contam sempre como um todo quando entram em campo, mas o lado emocional conta bastante. E quando cheguei a descrença estava instalada e era preciso criar crença num objectivo, na saída dos últimos lugares. Fazê-los acreditar que ainda era possível. E só isso mais a aceitação de uma série de novas ideias permitiu que déssemos tão rapidamente o salto. É verdade que a crítica ficou instalada nestes últimos sete jogos sem ganhar, mas a nossa ascensão da 8.ª à 15.ª jornada foi meteórica. Este período que passámos mal foi negativo, mas o que tínhamos construído antes foi super positivo. E isso deveu-se à capacidade de assimilar ideias e houve um impacto forte do aspecto emocional. A crença levou à superação e à obtenção de bons resultados sucessivos.

DC - Não sentiu qualquer tipo de desconfiança por parte dos atletas?
AVB Os jogadores medem sempre o seu líder e estão sempre à procura das fraquezas do seu líder e a testar essas fraquezas. Por outro lado quando são confrontados com competência, rigor e organização não andam à procura dessas debilidades, mas sim de evidenciar essas qualidades. Foi isso que aconteceu. Um mérito que esta equipa técnica tem foi a introdução de novas formas de abordar o jogo, de uma nova metodologia em treino e de ser capaz de motivar. No futebol e neste tipo de cenários a motivação conta tanto como os factores organizacionais.

DC - A Académica 2009/2010 fica marcada por gostar de ter a bola.
AVB Sim. É um orgulho que nós sentimos. Continuo a defender que todos os estilos são bons desde que levem à vitória. Sei qual é o meu estilo e que gosto de propor, que é um estilo protagonista, de ter a bola, de saber circulá-la e de criar um maior número de ocasiões. Mas não tenho dúvidas de que em Portugal está instalado o pragmatismo e o resultadismo. Muitas vezes a resolução de problemas até está nos lances de bola parada porque se acha que em Portugal os jogadores não são suficientemente criativos. Respeito, mas discordo totalmente disso porque o jogador português é criativo por natureza e não faltam casos desses nos últimos 50 anos. É um facto que o pragmatismo leva a resultados e até ao sucesso absoluto, mas defendo este estilo. Tive de equacionar se era possível este estilo, tendo em conta o que tinha à disposição. A partir do momento em que percebi que era possível e os jogadores acreditaram, isso permitiu-nos dar um salto meteórico, ter, por exemplo, o 6.º melhor ataque neste momento, chegar às meias-finais da Taça da Liga e jogar com os grandes como jogámos. Numa análise muito individual não é muito normal a forma como jogámos contra algumas equipas, porque está instalado o que acabei de referir. Podíamos orgulharmo-nos um pouco mais se tivéssemos crescido um pouco na tabela.

DC - Não sabe pôr a equipa a jogar à defesa?
AVB Sei e tenho de saber. Mau era de mim se não fosse capaz de o fazer.

DC - Mas não gosta de o fazer?
AVB Não sou contra. Quero é que as minhas equipas tenham um estilo muito próprio em que os jogadores acreditem. Na minha óptica só um estilo menos pragmático permitiria sair desta posição de uma forma tão meteórica.

DC - Acha então que um estilo mais pragmático poderia não ter resultados tão positivos?
AVB Talvez porque poderia não garantir o sucesso e poderia levar ao arrastamento e à manutenção daquela posição durante mais tempo e levar à descrença nesse tipo de estilo. Dessa forma permitiu-nos dar o salto rapidamente e a partir daí crença total numa forma de jogar.

DC - Chegou a sonhar com um lugar europeu?
AVB É difícil. Há sempre aquela pequena distância pontual que nós sentimos após o jogo com o Belenenses. Era uma tabela classificativa que estava em constante mudança e em que equipas que estavam por cima vão acabar por baixo e as que estavam por baixo vão acabar em cima, como são os casos de Nacional e Marítimo que deram um salto significativo. Havia muita proximidade na tabela classificativa em que rapidamente podíamos estar a lutar pela Europa como com uma derrota podíamos estar a lutar para não descer. Após o jogo com o Belenenses estivemos a cinco/seis pontos do Sporting que era referência em termos de lugar europeu, mas é inegável que houve um sentimento de que seria possível, embora o objectivo principal sempre foi e sempre será a manutenção. Vivemos com esse sentimento durante uma ou duas jornadas até entrarmos num ciclo difícil em termos de calendário que não nos permitiu ambicionar a mais. Penso que a Académica do futuro pode olhar para as taças com outros olhos. Será difícil a Taça de Portugal que é imprevisível, mas a Taça da Liga não é assim tão impossível.

DC - Se tivesse começado a época a equipa teria feito ainda melhor?
AVB Com o Rogério poderia estar instalada a descrença que falámos há bocado. Se calhar o Rogério era uma pessoa sob altíssima pressão pela forma como se processou a sua escolha. Não sei se até à 7.ª jornada teria pontuado mais vezes ou não. A Académica só fez três pontos é certo, mas também eu passei por um ciclo difícil. São ciclos que podem acontecer às equipas em que por exemplo tivemos lesões e castigos determinantes.

DC - Taça de Portugal foi uma desilusão, Taça da Liga uma ilusão?
AVB Taça de Portugal foi uma frustração grande por sermos eliminados cedo de mais. Lembro-me perfeitamente do jogo em que fizemos um jogo muito conseguido em termos de qualidade. Podíamos ter chegado ao intervalo com uma maior vantagem e depois do empate houve muita intranquilidade. A mudança para 4x4x2 não surtiu efeito, passámos ainda por maiores dificuldades e acabou por levar aos penáltis e à eliminação. A Taça da Liga foi um sucesso. É uma competição em que se deve continuar a apostar e que tem sido mal tratada. Perde-se um patrocinador como tinha falado na altura e não sei se se vai ganhar outro. Foi um progresso interessante pela forma como sucedeu, onde mais uma vez fomos alvo de críticas infundadas perante uma visão que nós tínhamos e que nos parecia a real em relação ao apuramento da média de idades. Fomos à outra fase de grupos onde ganhámos dois jogos e empatámos um com um grande, o que nos levou à meia-final, onde acho que a qualidade individual fez a diferença. Tivemos uma série de oportunidades nessa partida que nos poderiam ter levado à final.

Elogios ao plantel
Caso Diogo Gomes resolvido pelo grupo

DC - O que é que vale esta equipa da Académica?
AVB Tive o privilégio de lhes dizer muitas vezes que era um grupo muito forte. É difícil encontrar um grupo como este onde há grande empatia e onde todos se conhecem bem e se dão todos muito bem uns com os outros. É muito, muito difícil isso acontecer, isto porque há sempre climas de instabilidade entre alguns, inveja, ciúmes aqui e ali, seja por rendimento em jogo ou em treino ou até pelo contrato. Há uma série de factores dentro do balneário que contam para criar focos de instabilidade, mas neste grupo em particular isso nunca aconteceu. Têm mérito acima de tudo pela assimilação de ideias, pelo futebol que foram capazes de praticar, pela criatividade que foram capazes de demonstrar e isso só foi possível graças a esta união de grupo e este profissionalismo. Como já lhes disse só tive oportunidade de conhecer dois grupos assim: foi o que ganhou a Taça UEFA pelo FC Porto em 2002/2003 e o grupo que ganhou o primeiro campeonato inglês no Chelsea, em 2004/2005.

DC - O único caso de indisciplina foi o de Diogo Gomes?
AVB Penso que sim. Não tivemos mais nenhum problema que foi lidado em grupo. Dentro da nossa liderança, também por sermos uma equipa técnica jovem, a liderança aberta é fundamental e isso passa por responsabilização directa, muita frontalidade e passa pelos jogadores terem uma opinião válida sobre a gestão do grupo e neste particular cenário houve opinião do grupo e reprimenda do grupo para a situação do Diogo. Foi uma coisa resolvida internamente, dentro do grupo, sem qualquer tipo de sanção disciplinar por parte da direcção, onde o grupo recriminou e decidiu o que havia de fazer naquele cenário. Nem sempre este tipo de liderança é possível, mas é uma liderança com a qual nos identificamos. É uma liderança em que muita gente toma opiniões e toma decisões. É mais uma situação que nos deixa orgulhosos.

DC - Um dos lugares onde houve mais indefinição foi na baliza. O Ricardo e o Rui Nereu alternaram muito entre os postes. Porquê?
AVB Esta equipa técnica trabalha muito de acordo com o rendimento semanal. E bem vistas as coisas a pergunta tem de ser alargada ao plantel em geral porque a equipa rodou muito. Neste tipo de metodologia em que trabalhamos como um todo é decisivo o rendimento semanal. Não há donos de lugar. Houve uma altura em que um ou outro baixou de rendimento semanal e deram-se as mudanças, mas isso aconteceu em toda a equipa. Apesar de não parecer foi uma equipa que no seu global rodou bastante. Portanto, está a levar a questão para a baliza, mas estou a alargar a questão para o rendimento semanal que é decisivo para nós.

DC - Mas na baliza não é tão comum?
AVB Não sei se é normal ou não. No nosso cenário aconteceu. Normalmente um guarda-redes é titular no campeonato e outros rodam na taça, mas eu não posso abordar as coisas assim.

“Não é líquido quecontinue por causada cláusula de rescisão”

Tudo indica que André Villas-Boas vá continuar em 2010/2011 como treinador da Académica e o próprio já está a dar andamento à preparação para o próximo ano. De qualquer maneira, não assume de forma taxativa a continuidade, até porque tudo vai depender se algum clube estiver interessado em cobrir a cláusula de 500 mil euros.

DC - É líquido que vai continuar?
AVB Não é líquido pelo simples facto de haver uma cláusula de rescisão.

DC - Cláusula essa que se diz ser de 500 mil euros?
AVB Sim. Ninguém acreditava que o Figo fosse do Barcelona para o Real Madrid e acabou por ir, porque o Real Madrid chegou lá e bateu uma cláusula de rescisão que havia por bater. É um exemplo entre outros. Já referi que tive o privilégio de assinar por dois anos com a Académica o que muitos treinadores não têm. Por exemplo, o Paulo Sérgio assinou até ao fim da época pelo V. Guimarães e depois a meio da temporada renovou e vai sair para o Sporting, que vai pagar a cláusula de rescisão. As cláusulas existem para isso mesmo. Se houver algum clube que entenda que eu tenho competências para poder partir para outro tipo de projecto com outras ambições há um valor a pagar, que a Académica não vai abdicar dele e acho que faz bem, porque sente que tem um técnico que dá garantias. Agora estou muito satisfeito porque tive uma oportunidade única. Não é normal acontecer no futebol português, principalmente para uma pessoa que deixa de ser membro de uma equipa técnica para ocupar o primeiro cargo como técnico principal, aos 31 anos, mas aconteceu com os dois anos de contrato. Obviamente que houve o assédio do Sporting em Outubro, especulou-se depois muito depois da nega ao Sporting e vai continuar a especular-se. Porque ou vêem em mim competências ou então continuam entretidos comigo. Parece-me inegável que qualquer clube que tenha uma vaga vem divertir-se com o meu nome, o que acho uma falta de respeito para comigo e para com a Académica.

DC - Mas percebe que os sócios da Briosa querem saber se contam consigo para o ano.
AVB Mau era de mim se já não tivesse dado início à próxima época. Isso só iria revelar falta de competência que, sinceramente, não tenho. Entrego, desde Janeiro, ao director desportivo um papel sobre a definição da próxima época, sobre quem deve ou não ficar. Aliás, as renovações que têm sido feitas também têm a ver com o que queremos para o futuro. Agora com a manutenção garantida podemos focalizar-nos de uma maneira mais forte até para ambicionar outro tipo de objectivos, principalmente a Taça da Liga que é possível, tendo em conta todo o tipo de progressos que fizemos.

DC - Vai haver muita sangria no plantel?
AVB Julgo que não. O plantel é bom e há muita diversidade em termos de qualidade, no entanto há uma série de questões a resolver com os jogadores que terminam contrato, com decisões a tomar. Só depois de termos garantido a manutenção esse dossier pode ser olhado com outros olhos. Também é importante definir objectivos para a próxima época. Queremos algo mais do que a simples manutenção? Se sim então temos de ser mais agressivos no mercado, tendo em conta o orçamento baixo. É importante frisar que a Académica só trouxe um jogador no mercado de Janeiro, onde todos cometeram loucuras. Muitas das loucuras que outros cometeram, contratando seis/sete jogadores, foram loucuras cometidas porque os objectivos estavam em risco. Pagaram-se valores excessivos e nós mantivemos a linha de coerência, tendo em conta o que tínhamos e queríamos atingir. Esse é um aspecto super louvável numa realidade dificílima. Vive-se acima das possibilidades em Portugal. A Académica não vive acima das possibilidades. Paga a tempo e horas, há um conforto dos jogadores para com esse compromisso que a direcção tem com eles, que sabem que não vai faltar, o que é raro encontrar. Isso dilui-se um pouco noutros clubes, porque se sabe que estão em atraso, embora não se torne público. Este tem infra-estruturas, é organizado e chegou a Janeiro e não cometeu loucuras. Na preparação da próxima época teremos de ter em conta um orçamento que é baixo e temos definir o que queremos.

DC - O que é que o André quer?
AVB É uma decisão que não me cabe só a mim. Obviamente que os adeptos vêm com o maior tipo de sonhos e vive-se com a ilusão dos grandes jogadores e treinadores e depois quando se cai na real de passivos enormes esquece-se que há determinado tipo de coisas que não se pode ter. Portanto, não vamos viver acima das possibilidades. Vamos ser rigorosos na construção do plantel. Se pudermos acrescentar um ou outro jogador em termos de qualidade, até com empréstimos dos grandes, talvez nos possam permitir outro tipo de objectivos. Até podemos delinear o objectivo numa fase posterior.

DC - Preocupa-o perder jogadores como Cris, Tiero ou João Ribeiro?
AVB É difícil a Académica manter, por exemplo, um jogador como o Tiero. Há um orçamento a cumprir, há um tecto salarial que importa reter. Não está em causa a qualidade do Tiero, mas sim o orçamento da Académica. Acho que o mesmo caso não se irá passar com o Cris. Julgo que será uma questão de tempo. Ele sabe que sou um apreciador das qualidades dele e que gostava muito de poder contar com ele. Já lhe fiz saber isso a ele e à direcção. Agora a direcção será intransigente na defesa de um orçamento. Isso é imperial nesse tipo de situações. Cair no erro de se deixar levar pelo entusiasmo para contratar ou manter este ou aquele jogador ocorre nesse tipo de erro de adminstração que depois mais tarde é penalizada pela crítica e pelos próprios adeptos que, de repente, se lembram que não houve bom senso. E ter bom senso é ter rigor. Quanto ao João a sua qualidade é inegável e também é inegável que está a passar por um mau momento. Mas é inegável o que ele contribuiu para esta equipa. Se puder contar com ele, encantado da vida.

DC - A Académica já contratou alguém para 2010/2011?
AVB Não, mas há uma série de jogadores que temos em mente que gostávamos de trazer. Neste tipo de realidade da Académica é importante ver bem quando o mercado se agita. Será um mercado em que os grandes vão largar duas ou três pérolas que é importante caçar, que poderão acrescentar qualidade à equipa. Temos de ter as coisas alinhavadas e agora já podemos começar a tomar decisões.

DC - Tem estado atento à formação e ao satélite? Algum jogador dos juniores ou do Tourizense irá integrar o plantel na próxima época?
AVB Se posso fazer um auto-elogio foi o enquadramento que demos a todo o futebol juvenil com a abertura total aos treinadores em relação a métodos de treino. E também há a constante chamada de jogadores do satélite e dos juniores, algo que não acontecia com esta frequência, o que nos permitiu ter um conhecimento total do que temos à disposição, seja no Tourizense seja nos juniores. É possível que um ou outro venha a pertencer ao plantel no próximo ano.

“Inesquecível a forma como presidente apostou em mim”

DC - Como é a sua relação com o presidente?
AVB Óptima. De respeito absoluto. Devo-lhe muito por ter tido a visão de ter apostado em mim. Não é fácil dar um cargo a um treinador com 31 anos e após uma reunião dar-lhe um contrato de dois anos. Foi uma aposta de risco que decidiu tomar. Inesquecível a forma como apostou em mim, com uma confiança plena e a forma como sempre me apoiou a mim e aos jogadores, mesmo nesta situação em que estivemos sete jogos sem ganhar. Não se associou à crítica negativa instalada e foi uma pessoa que, tal como nós, foi fria na análise, na forma como perdemos pontos.

DC - Não ficou aborrecido por ele, em Novembro, não ter autorizado a sua ida para o Sporting?
AVB Não. Eu sentia-me muito bem. Tinha um sentimento forte de realização, os jogadores estavam comigo e como o projecto ainda não estava de forma alguma concretizado e porque o convite apareceu três semanas depois de eu ter chegado, a decisão dele acabou por não custar. Há muitas pessoas que não têm oportunidade de ter um grande à espreita. Esperam 50 anos por uma proposta ou choram por uma proposta. A verdade é que isso aconteceu e estou confiante de que mais tarde ou mais cedo volte a acontecer.

DC - Houve ou não interesse do Sporting nos últimos meses?
AVB Terá de perguntar ao Sporting. Foi o Sporting que emitiu um comunicado não fui eu. Foi o Sporting que durante uma série de tempo se recusou a emitir um comunicado e depois emitiu um comunicado. Eu já falei disso o suficiente.

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