"O Porto voltou inteiro: O clube, a cidade, o povo e a liderança". Por Óscar Afonso, Director da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, no ECO
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Porque para mim está aqui tudo; porque é isto que vou procurando transmitir, mas sem o brilhantismo do Professor Óscar Afonso; que resolvi replicar nas minhas redes sociais este brilhante texto. Apenas repito aquilo que tantas vezes digo: o FCP não se apregoa, pratica-se. O FCP não se explica, sente-se.
Viva o FCP, melhor clube português!
«Há um economista neste texto. E há um Portista. Neste momento, o Portista ganhou, porque há dimensões da vida humana que escapam a qualquer modelo, a qualquer equação e a qualquer análise racional.
Há cidades que existem. E há cidades que sentem. O Porto pertence à segunda categoria, e quem lá vive ou viveu, lá cresce ou cresceu, ou simplesmente aprendeu a amá-lo, sabe exatamente do que falo. É uma cidade que não pede licença para existir. Não se explica. Sente-se. O Porto é, antes de tudo, um estado de alma.
É também uma cidade que aprendeu, ao longo de séculos, a amar sem medir, a servir sem esperar recompensa e a anunciar o bem pela vida que vive, mais do que pelos discursos que faz. Numa região tantas vezes tratada como periferia por quem se julga centro do mundo, o Porto respondeu quase sempre da mesma forma: com trabalho, fé, orgulho e uma generosidade que desconcerta quem não a entende.
Ao cair do pano de uma época intensa, marcada por desafios dentro e fora de campo, ficou uma sensação clara: o Futebol Clube do Porto reencontrou-se com a sua identidade, com a sua união e com a sua ambição. As celebrações vividas na cidade foram a demonstração viva de um clube novamente ligado ao seu povo, à sua cidade e à sua essência. Uma comunhão rara, genuína e poderosa, que devolveu ao Portismo uma energia que há muito não se sentia com esta intensidade.
No sábado passado, a cidade sentiu de uma forma que muitos nunca tinham vivido e que os que já viveram muito garantem nunca ter visto com aquela intensidade. Do Dragão à Ribeira, da Ribeira aos Aliados, dos Aliados à varanda da Câmara, o Porto saiu à rua para celebrar um campeonato. O 31.º. Mas não foi a contagem que mais importou. Foi o significado daquela festa. Foi o que aquelas horas disseram sobre um clube, uma cidade e um povo que, perante cada adversidade, escolhem a alegria em vez da tristeza, a luz em vez das trevas e a esperança em vez do desespero.
Ao cair do pano de uma época intensa, marcada por desafios dentro e fora de campo, ficou uma sensação clara: o Futebol Clube do Porto reencontrou-se com a sua identidade, com a sua união e com a sua ambição. As celebrações vividas na cidade foram a demonstração viva de um clube novamente ligado ao seu povo, à sua cidade e à sua essência. Uma comunhão rara, genuína e poderosa, que devolveu ao Portismo uma energia que há muito não se sentia com esta intensidade.
Foi, nas palavras do próprio Presidente André Villas-Boas, provavelmente a maior festa de sempre do FC Porto. E quem esteve lá, ou quem viu pelas imagens, sabe que não foi exagero. Foi um reencontro. De um clube consigo mesmo. De uma cidade com a sua voz. De um povo com a certeza de que aquilo que ama continua vivo.
Uma história que pesa, honra e obriga
O FC Porto nunca foi apenas um clube de futebol. É uma forma de estar na vida. Nasceu à sombra de uma supremacia que raramente se justificou pelo mérito e muitas vezes se alimentou da proximidade ao poder. Cresceu contra esse sistema, conquistou espaço pela força dos resultados e pela verdade da sua ambição, e foi construindo, jogo a jogo, época a época, uma identidade que não se compra nem se empresta. Uma identidade que se herda, se aprende e se defende com raça, trabalho e o orgulho inconfundível de quem sabe de onde vem.
Contra uma comunicação frequentemente distorcida, contra uma mão invisível que raramente foi justa e contra o ruído de quem preferia ver o Porto enfraquecido, os Portistas responderam muitas vezes com a única força que nunca lhes puderam tirar: a fé. Não uma fé ingénua, mas a fé de quem já viveu demasiadas adversidades para se deixar vencer por elas.
Pedroto ensinou-lhe a ambição. Pinto da Costa deu-lhe o mundo. Artur Jorge, Mourinho e André Villas-Boas ofereceram-lhe a Europa mais improvável e mais gloriosa. E, ao longo de décadas, jogadores como Jorge Costa deram rosto humano a uma mística que transcende qualquer resultado. Porque o FC Porto nunca foi apenas sobre vencer. Foi sempre sobre como se vence. Com brio, com integridade, sem se dobrar ao que não é justo.
Jorge Nuno Pinto da Costa, o Presidente mais titulado da história do futebol mundial, e Jorge Costa, o capitão eterno, partiram ambos em 2025. E foi precisamente nesse ano, talvez o mais pesado em memória recente, que o FC Porto escolheu renascer. Como se soubesse que é nos momentos mais difíceis que as grandes instituições revelam de que são feitas. Como se a dor tivesse sido transformada, mais uma vez, em força.
Por isso, quando André Villas-Boas dedicou esta conquista a Pinto da Costa e a Jorge Costa, não fez apenas um gesto de circunstância. Fez justiça à memória. Reconheceu que há histórias que pesam, honram e obrigam. E mostrou que uma instituição verdadeiramente grande não apaga o passado para construir o futuro. Aprende com ele, agradece-lhe e procura estar à sua altura.
Liderar sem desculpas para transformar o que se recebe
Há dois anos, André Villas-Boas entrou num clube financeiramente fragilizado, institucionalmente desgastado, dividido em muitos afetos e habituado a gerir a urgência. Encontrou um clube com enormes dificuldades financeiras, com perda de identidade em vários planos e com uma relação com os adeptos que precisava de ser reconstruída. Entrou num lugar onde a luz parecia cada vez mais difícil de acender.
Quem o conhece sabia que ele não vinha para administrar o declínio. Vinha para o inverter. Sem rancor pelo que tinha sido mal feito, mas com plena consciência da gravidade do que tinha recebido. Com foco naquilo que era preciso reconstruir. Com a coragem de assumir um clube em estado crítico e a determinação de o recolocar num caminho de crescimento.
Em apenas dois anos, a transformação tornou-se visível. Cresceu o número de sócios. O clube aproximou-se dos adeptos. A experiência em dias de jogo melhorou. A comunicação tornou-se mais moderna, transparente e próxima. A estrutura desportiva foi reorganizada. O investimento foi pensado com outro critério. Nada disto resolve todos os problemas, porque a reconstrução está longe de concluída, mas revela um rumo claro e uma visão estratégica de que o clube precisava urgentemente.
Há líderes, em clubes, organizações e países, que passam demasiado tempo a explicar por que razão não conseguem fazer melhor. Invocam o passado, a escassez, o contexto, os constrangimentos, os erros recebidos, a resistência das estruturas ou a dificuldade da conjuntura. Muitas vezes, essas razões existem. Muitas vezes, o diagnóstico é verdadeiro. Mas a liderança não se mede pela sofisticação com que se descrevem os obstáculos. Mede-se pela capacidade de os enfrentar.
E talvez resida aqui uma das maiores lições deste ciclo. O que aconteceu no FC Porto não foi apenas a conquista de um campeonato. Foi uma demonstração de liderança e de gestão em contexto adverso. Uma prova de que a herança recebida, por mais pesada que seja, e as circunstâncias existentes, por mais difíceis que pareçam, não podem servir eternamente de desculpa para não fazer, para não decidir ou para não transformar.
Há líderes, em clubes, organizações e países, que passam demasiado tempo a explicar por que razão não conseguem fazer melhor. Invocam o passado, a escassez, o contexto, os constrangimentos, os erros recebidos, a resistência das estruturas ou a dificuldade da conjuntura. Muitas vezes, essas razões existem. Muitas vezes, o diagnóstico é verdadeiro. Mas a liderança não se mede pela sofisticação com que se descrevem os obstáculos. Mede-se pela capacidade de os enfrentar.
Quem é competente não ignora a realidade que recebe. Pelo contrário, começa por compreendê-la com lucidez. Mas não se refugia nela. Não transforma o passado em álibi, as circunstâncias em desculpa, a escassez em resignação ou a dificuldade em destino. A competência revela-se quando alguém olha para uma organização fragilizada e deixa de perguntar apenas “de quem é a culpa?” para perguntar, com seriedade e sentido de responsabilidade: “o que é preciso fazer agora?”
Foi isso que este FC Porto fez. Aprendeu com os erros, enfrentou o contexto, reorganizou-se, decidiu e uniu. Percebeu que a resiliência não é esperar que a tempestade passe. É trabalhar dentro dela. É agir quando os recursos são escassos. É escolher quando a escolha é difícil. É assumir responsabilidade quando seria mais cómodo distribuir culpas.
E há ainda uma dimensão essencial: ninguém transforma uma organização ou um país sozinho. Saber escolher uma boa equipa é também sinal de competência. Talvez seja mesmo uma das suas expressões mais exigentes. Um líder competente não se rodeia apenas de pessoas leais, rodeia-se de pessoas capazes. Não procura apenas concordância, procura critério. Não escolhe apenas quem confirma, escolhe quem acrescenta. Não teme a competência dos outros, mas convoca-a, organiza-a e dá-lhe condições para produzir resultado.
Essa é também uma lição de gestão. As grandes transformações não nascem de impulsos isolados, nem de vontades solitárias. Nascem de equipas bem escolhidas, de responsabilidades bem distribuídas, de uma cultura de exigência e de uma liderança suficientemente segura para confiar nos melhores. Quem sabe escolher, mostra visão. Quem sabe delegar, mostra maturidade. Quem sabe alinhar talentos diferentes em torno de um objetivo comum, mostra liderança verdadeira.
Villas-Boas não fez isto sozinho, e essa é parte importante da grandeza do feito. Rodeou-se de uma estrutura competente, preparada e alinhada com a exigência do cargo. Mas, sendo ele o líder deste novo ciclo e a escolha inequívoca dos sócios, é justo reconhecer que muito do que hoje se vive no universo Portista nasce da sua coragem, da sua lucidez e da sua capacidade de devolver ao clube uma ideia simples e poderosa: o FC Porto não nasceu para sobreviver, nasceu para vencer.
É uma lição de exigência, coragem e superação. Mostra que, com visão, cultura de trabalho, capacidade de decisão, boa escolha de pessoas e confiança no projeto, é possível alcançar objetivos que muitos julgavam inalcançáveis. No desporto, como nas organizações e na vida pública, os resultados aparecem quando existe liderança responsável, equipa competente, cultura de exigência e uma comunidade que acredita no caminho.
Por isso, esta conquista vale mais do que os pontos que a tabela mostra. É uma lição de exigência, coragem e superação. Mostra que, com visão, cultura de trabalho, capacidade de decisão, boa escolha de pessoas e confiança no projeto, é possível alcançar objetivos que muitos julgavam inalcançáveis. No desporto, como nas organizações e na vida pública, os resultados aparecem quando existe liderança responsável, equipa competente, cultura de exigência e uma comunidade que acredita no caminho.
À segunda época completa à frente do clube, André Villas-Boas viu a equipa sagrar-se campeã nacional. Tornou-se o presidente que mais rapidamente conquistou o título depois de assumir a liderança. Não é apenas um dado estatístico. É uma declaração de intenções cumprida.
No balcão dos Paços do Concelho, disse com simplicidade: “O FC Porto voltou graças a uma equipa única”. E talvez seja mesmo essa a melhor síntese. Uma equipa que escolheu a união em vez da discórdia e a confiança em vez do medo. Presidentes também marcam golos. E este marcou um dos mais importantes da história recente do clube, não apenas no marcador, mas no espírito.
A equipa que transformou saudade em força
Dentro do campo, Francesco Farioli construiu algo raro: uma equipa que acredita. Uma equipa que defende como se cada centímetro do relvado fosse sagrado, que sufoca o adversário com organização, que sabe sofrer, que sabe esperar e que sabe matar os jogos nos momentos certos. Uma equipa que, quando ficou sem dois pontas de lança, ganhou na mesma, porque o coletivo era maior do que qualquer indivíduo.
Há treinadores que montam equipas. E há treinadores que constroem convicções. Farioli fez as duas coisas. Pegou num grupo sujeito a pressão, dúvida e expectativa e deu-lhe uma ideia clara de jogo, mas também uma razão para acreditar. E isso, no futebol como em qualquer organização, faz toda a diferença. A estratégia importa. O talento importa. A preparação importa. Mas nada substitui a confiança coletiva, aquela força invisível que faz cada um sentir que o esforço individual tem sentido porque faz parte de algo maior.
No Dragão, quando o título foi conquistado, desceu ao relvado uma bandeira iluminada com um único foco de luz, entregue a Villas-Boas num estádio inteiro a gritar pelo nome de Jorge Costa. Farioli foi dos primeiros a prestar homenagem, lembrando que a força da equipa durante a época foi também Jorge Costa. Fisicamente ausente, mas presente no pensamento, na memória e talvez em muitas defesas que pareciam impossíveis.
Há títulos que se ganham. Há títulos que se dedicam. Há títulos que consolam. Este foi tudo isso ao mesmo tempo. Uma dádiva para os que ficaram, um consolo para a saudade e um sinal de que a memória dos que partem não se apaga. Transforma-se em força.
Diogo Costa foi, ao longo da época, a encarnação desse espírito. Guarda-redes, capitão e muralha. A figura que o clube soube segurar. Ficou e serviu quando, eventualmente, podia ter ido e ter brilhado noutro lugar. E ergueu a taça na varanda da Câmara perante dezenas de milhares de Portistas em delírio, sem arrogância, com a serenidade de quem sempre soube que estava no lugar certo.
A cidade que nunca se esquece de si própria
O presidente da Câmara Municipal do Porto, Pedro Duarte, disse aquilo que a cidade sentia: o FC Porto é mais do que um clube, representa a região, o trabalho, o esforço e o mérito. Representa a alma tripeira, a raça, o espírito e o caráter do Porto. E acrescentou que foi uma vitória contra tudo e contra todos, justa e indesmentível.
Foram palavras certas no momento certo. Porque o Porto não é uma cidade de adornos. É uma cidade de substância. Trabalha quando outros dormem. Sobe quando a empurram para baixo. Prefere a verdade ao erro e a compreensão ao julgamento fácil. Nunca precisou que lhe dissessem o que valia, porque sempre soube.
Para nós, nunca foi uma ofensa. Foi sempre uma pertença. Uma medalha discreta, mas funda, trazida no peito por quem sabe de onde vem. Como o minhoto, o transmontano e tantos outros filhos do Norte, também o portuense carrega terra nas raízes, carácter na voz e orgulho na pele. Ser do Norte, ser do Porto e ser Portista não é uma moda, nem apenas um sotaque. É uma forma de estar. É a teimosia granítica de quem cresceu a lutar contra a corrente, de quem aprendeu a conquistar sem pedir licença e de quem sabe que só é verdadeiramente livre quem não tem vergonha da sua origem.
Há quem ainda pense que chamar-nos “regionais” é uma forma de nos diminuir. Curioso equívoco. Para nós, nunca foi uma ofensa. Foi sempre uma pertença. Uma medalha discreta, mas funda, trazida no peito por quem sabe de onde vem. Como o minhoto, o transmontano e tantos outros filhos do Norte, também o portuense carrega terra nas raízes, carácter na voz e orgulho na pele. Ser do Norte, ser do Porto e ser Portista não é uma moda, nem apenas um sotaque. É uma forma de estar. É a teimosia granítica de quem cresceu a lutar contra a corrente, de quem aprendeu a conquistar sem pedir licença e de quem sabe que só é verdadeiramente livre quem não tem vergonha da sua origem.
É uma cidade que aprendeu a viver com a injustiça sem se tornar injusta. A receber o desprezo sem devolver desprezo. A manter a fé quando as circunstâncias convidam à dúvida. Não porque seja ingénua, mas porque sabe que o amor dura mais do que o ódio, que a alegria sobrevive à tristeza e que a luz, por mais pequena que seja, acaba sempre por vencer as trevas.
E o FC Porto é o espelho mais fiel dessa cidade. Com as suas fragilidades, as suas crises e os seus momentos de dúvida. Mas também com uma capacidade extraordinária de se levantar cada vez que cai, de recomeçar sem abandonar o essencial e de voltar a ligar-se ao seu povo quando essa ligação mais falta faz.
Na madrugada de sábado para domingo, quando Diogo Costa ergueu a taça na varanda da Câmara, milhares de Portistas celebraram um campeonato, mas celebraram muito mais do que isso. Celebraram o regresso de um clube a si próprio. Celebraram a união entre clube, equipa e adeptos. Celebraram a vitória de quem ama sem medir sobre quem apenas tolera quando convém.
O que esta festa ensinou ao mundo
Em Los Angeles, Portistas celebraram. Na Venezuela, Portistas celebraram. Por todo o mundo, Portistas celebraram. Em Évora, em Braga, em Lisboa, por todo Portugal, houve Portistas a celebrar. Porque o FC Porto não é apenas do Porto. É de quem ama o Porto. De quem carrega aquelas cores independentemente da latitude, da distância ou da circunstância.
Quem também muito carregou este ano foi a massa associativa. A gente humilde e trabalhadora que não precisa de convite para aparecer. Que está nos jogos bons e nos jogos maus. Que conforta quando outros recriminam. Que anima quando outros desistem. Que oferece o seu tempo, a sua voz e o seu amor sem pedir nada em troca.
Quatro anos sem campeonato. Quatro anos de crises, dúvidas e ruído, muito dele fabricado por quem nunca nos quis bem. Quatro anos a acreditar que o Porto voltaria, não pela força das circunstâncias, mas pela força do que é. E voltou. Com 88 pontos, de forma clara, inequívoca e à Porto.
Naturalmente, o futuro continuará difícil. O FC Porto ainda enfrenta obstáculos exigentes, e a reconstrução está longe de terminada. Mas existe hoje algo fundamental que durante demasiado tempo pareceu fragilizado: a união entre clube, equipa, estrutura e adeptos. E quando o FC Porto está unido ao seu povo, torna-se uma força extremamente difícil de derrubar.
Essa talvez seja a maior mensagem que esta festa deixou. O FC Porto não celebrou apenas porque ganhou. Ganhou também porque voltou a acreditar em conjunto. Porque os adeptos voltaram a sentir que faziam parte do caminho. Porque a equipa sentiu que não estava sozinha. Porque a estrutura percebeu que a confiança não é um detalhe emocional, é uma força produtiva. Porque a liderança compreendeu que nenhuma transformação séria se faz contra a comunidade, nem apesar dela, mas sempre com ela.
E é aqui que a celebração ultrapassa o futebol. Mostra que, nas organizações como nos países, não basta haver estratégia se não houver pertença. Não basta haver liderança se não houver confiança. Não basta haver competência se não houver capacidade de unir. Os projetos tornam-se verdadeiramente fortes quando deixam de ser apenas planos de quem lidera e passam a ser causa de quem participa.
Foi isso que se viu nas ruas do Porto e em tantos lugares do mundo. Não apenas adeptos felizes, mas uma comunidade inteira a reconhecer-se de novo no seu clube. Não apenas uma festa, mas a confirmação pública de uma transformação. Não apenas um campeonato, mas a prova de que uma instituição reencontra força quando volta a ligar liderança, equipa e povo em torno da mesma ambição.
Uma geração que não se esquece
Este campeonato pertence a todos. Como diz o slogan, “conseguimos juntos”. Mas pertence de forma especial a esta geração de dirigentes, treinadores e jogadores que, partindo de um clube fragilizado, construíram algo que demorava a construir, com paciência, entrega e a generosidade de quem sabe que reconstruir leva tempo, mas que vale a pena.
Pertence a Villas-Boas, que ligou a luz quando estava tudo escuro. Que foi eleito por amor ao clube e não por ambição de poder. Que escolheu a esperança quando havia razões de sobra para o desânimo e que preferiu a verdade mesmo quando a mentira seria mais fácil.
Pertence também à estrutura que o acompanhou. Aos que trabalharam longe das câmaras, aos que reconstruíram processos, aos que reorganizaram áreas, aos que devolveram método, critério e exigência a decisões que durante demasiado tempo pareciam tomadas pela urgência. No futebol, como nas organizações, há muito trabalho que nunca aparece na fotografia do título. Mas sem esse trabalho discreto não há vitória que resista.
Pertence a Farioli, que chegou como uma aposta e se tornou uma certeza. Que soube ganhar com o que tinha, transformar cada limitação numa virtude e criar dentro do grupo uma confiança que nenhuma adversidade conseguiu quebrar.
Há coisas que a economia não consegue medir: a intensidade de uma festa que começa num estádio e termina na varanda da Câmara, o orgulho de uma cidade que se reconhece num clube, a emoção de ver uma taça erguida por quem merece erguê-la e que a ergue também em nome dos que já não estão para a ver.
Pertence a Diogo Costa, que ficou quando podia ter ido. Que serviu quando podia ter partido. Que foi, ao longo de uma época inteira, a encarnação da fidelidade.
Pertence à memória de Pinto da Costa, o presidente que durante décadas fez o impossível parecer inevitável, e de Jorge Costa, o capitão que nunca parou de lutar. E pertence, acima de tudo, aos Portistas. Aos que foram ao Dragão e aos que viram de longe. Aos que choraram de alegria e aos que choraram de saudade. Aos que nunca deixaram de acreditar, mesmo quando havia pouco para acreditar.
Por isso, parabéns a toda a estrutura. E, de forma especial, ao Presidente André Villas-Boas, não apenas pelo título, mas pela coragem de provar que a dificuldade não é destino. Pode ser matéria-prima de transformação.
Porto é pertença
Há um economista neste texto. E há um Portista. Neste momento, o Portista ganhou, porque há dimensões da vida humana que escapam a qualquer modelo, a qualquer equação e a qualquer análise racional.
Há coisas que a economia não consegue medir: a intensidade de uma festa que começa num estádio e termina na varanda da Câmara, o orgulho de uma cidade que se reconhece num clube, a emoção de ver uma taça erguida por quem merece erguê-la e que a ergue também em nome dos que já não estão para a ver.
Mas talvez a economia e a gestão possam, ainda assim, aprender algo com isto. Aprender que as organizações não vivem apenas de ativos, orçamentos, estruturas ou planos estratégicos. Vivem de confiança. De cultura. De liderança. De memória. De pertença. De uma energia coletiva que não aparece nos balanços, mas que explica muitas vezes a diferença entre sobreviver e transformar.
O FC Porto não se explica. Sente-se. Vive-se. Ama-se sem medida, sem condição e sem esperar que o amor seja devolvido na mesma proporção. É esse amor que resiste ao centralismo, que sobrevive à injustiça, que perdoa sem esquecer, que se alegra quando há razão para se alegrar e que chora sem vergonha quando a saudade pesa demais.
O Porto nunca foi apenas um clube. O Porto é identidade, resistência e pertença. É união quando tudo parecia dividido. É ambição quando muitos aconselhavam prudência. É povo quando a instituição precisa de voltar à sua essência. É liderança quando a dificuldade deixa de ser desculpa e passa a ser caminho. É gestão quando a visão encontra método. É superação quando a exigência se transforma em cultura.
No sábado passado, o mundo inteiro sentiu. O campeão voltou. Com brio, profissionalismo, raça e à Porto. Como sempre foi. Como sempre será. O FC Porto está vivo, forte e de volta. E desta vez, veio para ficar.
Somos Porto.»

